Como a Bethesda Game Studios criou a língua dos dragões de Skyrim

Como a Bethesda Game Studios criou a língua dos dragões de Skyrim

Parker Wilhelm profile pictureBy Parker Wilhelm / Content Manager
26 de agosto de 2021

O mundo de The Elder Scrolls V: Skyrim é rico em detalhes, trazendo desde uma história complexa e repleta de personagens memoráveis até locais habitados (e às vezes abandonados) que possuem suas próprias histórias para o jogador descobrir.

A variedade de paisagens e cidadãos torna os recantos gelados de Skyrim misteriosos e intrigantes, mas há um detalhe em especial que não só aumenta a imersão do jogo como também ajudou a definir a ambientação dele como um todo.

O jogador assume o papel de Dovahkiin, ou Dragonborn, combatente de feitos lendários cujo título significa “nascido de dragões” na língua da antiga e poderosa raça dos dragões de Skyrim. Entretanto, a influência das ferozes criaturas aladas de Skyrim vai além do nome Dovahkiin; a presença dos dragões é evidenciada em todo o mundo do jogo na forma de um idioma tanto escrito quanto falado.

Até mesmo os brados do jogo – incríveis habilidades que Dovahkiin utiliza através da voz – são na língua dos dragões, dando uma unidade temática a Skyrim que se destaca entre os outros jogos da série Elder Scrolls. Apesar da ambientação fantástica, Skyrim e sua língua dos dragões foram criados no mundo real pela equipe da Bethesda Games Studios, então como começou a tarefa de criar essa forma de comunicação nova para uma espécie fictícia?

SKY Dragon in-body Cave

“Essa… é uma ótima pergunta, e minha memória já não me permite respondê-la com precisão”, diz Emil Pagliarulo, Design Director na Bethesda Game Studios e atual Lead Designer & Writer de Starfield. “Lembro de discutir linguagem e escrita com Todd Howard (Executive Producer na Bethesda Game Studios), e de uma coisa meio que ter levado à outra a partir daquelas conversas.”

O FALAR DOS DRAGÕES

Durante o desenvolvimento de Skyrim, Pagliarulo era um Senior Designer encarregado principalmente das missões da Irmandade das Sombras, de escrever diálogos para os guardas do jogo e de criar o design inicial da maioria das cidades principais. Devido ao foco do jogo em dragões, porém, Pagliarulo logo ganhou outra grande responsabilidade: criar a língua deles.

“A questão da língua dos dragões é que ela não é só um idioma. Ela é, acima de tudo, um elemento de jogabilidade que permite usar os brados”, diz Pagliarulo. Aliás, a ideia de transformar as palavras dos dragões em poderes teve uma inspiração curiosa: a adaptação de David Lynch para o cinema do romance Duna, lançada em 1984.

“Naquele filme, há uma diferença considerável em relação ao livro: o estilo de luta 'Weirding Way' ('doutrina dos sortilégios' ou 'modo sobrenatural', em diferentes traduções brasileiras do romance), utiliza uma coisa chamada 'Weirding Module' ('módulo de batalha', na dublagem brasileira do filme), que basicamente emprega o som como arma,” explica Pagliarulo. “Essa maneira de usar o som, incluindo a relação com a respiração, influenciou diretamente a mecânica dos brados de dragão.”

SKY Dragon in-body Script

Nesse aspecto, um desenvolvedor que está criando um jogo de ambientação rica enfrenta um desafio singular: esse idioma fictício precisa não só contar uma história como também ter uma função no mundo do jogo. Felizmente, os brados dracônicos de Skyrim funcionam tanto como mecânica de jogo quanto como um idioma plausível de ser falado por dragões.

“A língua tem um padrão que talvez os jogadores não percebam”, diz Pagliarulo. “Por exemplo, todo brado é composto de um, dois ou três monossílabos. Cada uma dessas palavras também funciona diferente dependendo de quantas o brado possui. Se há apenas 'Fus', o ar é expelido com força ao falar, indicando a potência do comando. Mas se há duas ou mais palavras, 'Fus' é dito inspirando, pois modifica a segunda e a terceira palavras, que são exaladas com força. Isso foi muito importante para o uso da língua em brados; eles tinham que soar fortes. Fortes como um sopro de dragão.”

Assim, os brados ajudaram a definir a base da dicção dos dragões e ainda serviram como um fundamento interessante do funcionamento da língua. Próximo desafio: preencher o léxico com um vocabulário de palavras dracônicas.

“Eu me baseei em idiomas como sueco, dinamarquês e alemão. Mas um dos que mais me influenciou foi o inglês antigo”, diz Pagliarulo. Anos antes, durante o desenvolvimento da expansão Bloodmoon para The Elder Scrolls III: Morrowind, Pagliarulo havia encontrado inspiração em uma versão de Beowulf em inglês antigo, o que também se mostrou útil para a língua dos dragões, neste caso como referência criativa.

GRAVADO EM PEDRA

Quanto ao alfabeto, foi desenvolvida uma escrita cuneiforme formada por letras que evocam a imponente imagem dos dragões. “A linguagem visual foi ideia do Todd Howard. Ele queria alguma coisa que parecesse ter sido gravada em pedra por garras de dragão, o que eu achei genial”, diz Pagliarulo. “Os símbolos em si foram pensados e desenhados pelo falecido Adam Adamowicz, cujo talento para interpretar ideias parecia não ter fim.”

SKY Dragon in-body Exploration

Outro desafio singular da criação de uma língua fictícia para o jogo foi a necessidade de atualizá-la durante o processo colaborativo que é a criação de um videogame. “Quando a coisa engrenou, os designers começaram a pensar em palavras e frases novas, então foi difícil manter a base de dados atualizada”, comenta Pagliarulo, “ainda mais em duas versões, inglês-dracônico e dracônico-inglês!”

“Além disso, idiomas evoluem e podem ficar incrivelmente complexos. O sindarin de J. R. R. Tolkien, por exemplo, é uma língua extremamente elaborada, com dialetos que ele passou anos desenvolvendo. A língua dos dragões é muito, muito mais simples. Em vários aspectos, a língua dos dragões emprega uma das melhores técnicas do design de jogos: a habilidade de passar a impressão. Ela dá uma sensação de complexidade que prende o jogador e oferece imersão, mas não tem qualquer complexidade além disso porque, como elemento de jogabilidade, não precisava ter.”

DANDO VOZ

Não foi um esforço em vão, porém. A língua dos dragões não só ofereceu mais imersão aos jogadores nos recantos nevados do mundo de Skyrim como também formou parte significativa da identidade do jogo, incluindo o famoso tema Dragonborn, apresentado ao mundo em dezembro de 2010, no trailer de lançamento de Skyrim.

“O primeiro desafio de uso da língua foi escrever a letra da música tema, porque ela tem uma estrutura única que rima tanto em inglês quanto em dracônico”, explica Pagliarulo. “Aquele exercício determinou muito da sonoridade da língua, do tipo de natureza rítmica que ela tem.”

Não foi só aquele emprego da língua dos dragões que marcou os jogadores ao longo de todos esses anos. Os brados do jogo também ressoaram não só com os fãs como com a comunidade de jogos em geral, especialmente o brado de Força Implacável. Mesmo se o nome não for familiar, vocês com certeza lembram das palavras: FUS RO DAH.

“'Fus Ro Dah!' deve ser o meu brado favorito; ele é tão forte e simples”, diz Pagliarulo. “Ele meio que representa toda a língua dos dragões e, sério, é superdivertido de gritar! Aliás, no trailer de Skyrim, aquele grito é meu. Foi incrível entrar no estúdio, sentir aquela força e só gritar.”

Obviamente, não há um único elemento que defina Skyrim por si só; o jogo é um esforço conjunto e colossal de uma equipe inteira de talentosos artistas, escritores, programadores, testers e muito, muito mais. Entretanto, a criação e o uso da língua dos dragões é um ótimo exemplo do nível de detalhes de Skyrim e da forma como a Bethesda Games Studios usa esse detalhamento para criar mundos críveis, habitados e, acima de tudo, que os jogadores adoram explorar.

MAIS DO QUE PALAVRAS

“O nome mesmo já diz: Skyrim ('borda do céu')”, comenta Pagliarulo. “Mais do que um jogo, Skyrim é um lugar. Um lugar onde se pode morar. Construir uma casa! Adotar um filho! Concluir missões procedurais infinitas! Acho que esse é o grande ponto forte de Skyrim; mesmo depois de jogar todo o conteúdo, você ainda tem coisas para fazer. E aí, se quiser, pode começar de novo e ter uma experiência bem diferente na segunda, terceira ou quinta vez. E acho que tudo isso mostra muito de todo o trabalho duro, dedicação e amor da equipe pelo jogo.”

Esse trabalho duro, essa dedicação e, curiosamente, esse amor são sentidos pelos jogadores. Pagliarulo relembra a história de um casal que estava planejando se casar em uma cerimônia temática de Skyrim. A Bethesda Games Studios queria presentear os noivos com um bolo de casamento personalizado, mas tinha um problema: o que escrever no bolo?

SKY Dragon in-body Cake

“Não dá para escrever uma frase sem a palavra 'amor' num bolo de casamento, certo? Bom, assim como em klingon, não tinha uma palavra para amor na língua dos dragões!”, diz Pagliarulo, rindo. “Então eu tive que criar uma.” A palavra criada é “Ros” (de rosa) e a frase inteira que Pagliarulo criou foi “que seu amor seja eterno”.

“Por mais que a língua dos dragões seja fictícia, ela é real para Skyrim e para todos os jogadores que decidem viver naquele mundo”, conclui Pagliarulo, “e esse é um privilégio que tem muita importância para mim.”

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